Nanociência: nanoMickeys surpreendem pesquisadores
Durante um experimento com nanofios realizado por pesquisadores do Laboratório de Química do Estado Sólido da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os cientistas tiveram uma surpresa: nanoMickeys apareceram sorrindo. Os ratinhos puderam ser observados, por meio de um microscópio eletrônico de transmissão, após a equipe do professor Oswaldo Alves, do Instituto de Química da universidade, ter preparado em uma autoclave nanofios de vanadato de prata decorados com nanopartículas de prata, que possuem ação antibacteriana ao serem incorporados a materiais como plásticos e tecidos. O objetivo dos pesquisadores, segundo Raphael D. Holtz, doutorando da Unicamp e membro da equipe, era desenvolver nanossistemas híbridos com elevada atividade antibacteriana.

Imagem de experimento que revela um nanomickey. Imagem: professor Oswaldo Alves/LQES/Unicamp
De acordo com Raphael, a aparição desse tipo de figura em experimentos em nanotecnologia não é algo comum. “Alguns grupos de pesquisa, tanto de universidades quanto de empresas, já fabricaram nano-objetos, como nanoguitarras, nanocarros, nanorrádios, e até mesmo figuras de personalidades políticas. Esse processo de fabricação, chamado top-down, impõe uma estrutura no sistema através da definição de padrões, utilizando técnicas como a litografia (gravação em uma superfície plana, geralmente metálica, usando luz e decapantes químicos) e a microscopia de feixe de íons focalizados. O processo de fabricação do nanoMickey foi outro, completamente diferente”, afirma o estudante.
O surgimento dessa figura inusitada foi uma surpresa para a equipe. A questão envolvida na fabricação do nanoMickey é mais complexa do que as citadas anteriormente. A nanoestrutura foi formada através do processo de auto-organização (bottom-up), que é intrínseco e autônomo. “O nanoMickey não foi criado intencionalmente, ele “surgiu” sobre um nanofio de vanadato de prata. Isso levanta questões importantes acerca da auto-organização. A maneira como ocorre esse auto-ordenamento e a forma de controlá-lo ainda são questões que exigirão muito estudo, mas sabemos que repetindo o experimento o padrão do nanoMickey aparece. Figuras inusitadas como essa, formadas por auto-organização, não são comuns”, explica Raphael.
Complementando a explicação do estudante, o professor Oswaldo Alves afirma que é possível obter nanofiguras em superfície através de técnicas de litografia, as mesmas utilizadas para a produção de chips. “Através do processo top-dow podemos “esculpir” uma nanofigura em uma dada superfície, como foi feito na produção do nano Obama . Neste caso já temos, desde o início, a decisão do tipo de figura que estamos interessados em construir, pois trata-se de uma (nano)reprodução”.
O professor Antônio Gomes Souza Filho, do departamento de Física da Universidade Federal do Ceará (UFC), também participa do estudo. “A colaboração entre a UFC e LQES-Unicamp acontece através de experimentos de espectroscopia Raman (técnica de alta resolução que proporciona, em poucos segundos, informação química e estrutural de materiais, permitindo sua identificação) nesses sistemas. O Laboratório de espectroscopia Raman é muito bem equipado para experimentos em nanociência e nanotecnologia e tem recebido apoio da FUNCAP em diversos editais”, diz o professor.
Os pesquisadores acreditam que o nanoMickey pode contribuir para ajudar a popularizar a nanotecnologia, especialmente entre as crianças devido ao forte apelo infantil do personagem da Disney.










